Tu não fizeste nada de errado, apenas aquilo que te parecia certo. É só que... às vezes é demais, sabes? E eu, que era tão livre. De repente vejo-me presa, como se tivesse todos os meus movimentos calculados. Perdoa-me. Perdoa-me se estou a ser precipitada e egoísta - eu sei que estou. Mas eu não aguento mais. Amo-te, não te esqueças disso, e eu não me esqueço que também me amas. E se um dia nos encontrarmos, faz de conta que não me vês. Não tornes tudo mais difícil para ti, para mim, para o "nós" que já fomos.
Era isto que estava na carta, a carta deixada a substituir as roupas tiradas do guarda-vestidos. Chegara a casa à espera de um beijo e tudo o que encontrou foi uma folha de papel ainda húmida pelas lágrimas salgadas, a folha que ele encharcou ainda mais. Tentou rasgá-la, mas não tinha forças. "Perdoa-me". Não, ele não a conseguia perdoar assim. Amava-a mais do que à própria vida, e ela deixara-o. E tudo parecia tão perfeito. A perfeição que acabou ali. Porque a rapariga dos sonhos dele se tornara na protagonista do seu maior pesadelo. Ela viera, fora, e uma parte dela recusava-se a sair do seu coração.
Ela continuou a andar, os pés já em ferida nos sapatos altos. Não sentia a dor, pois a dor interior era tão mais forte... E no entanto, ela já se estava a habituar, era como se não sentisse nada. As lágrimas corriam pelo seu rosto e ela nem se preocupava em escondê-las de quem a olhava. Olhou o vidro da montra de uma loja, a beleza pela qual era conhecida desaparecera, perdera-se numa imagem que não era, não podia ser ela. Olheiras profundas, os olhos vermelhos, o cabelo desgrenhado, as roupas molhadas da chuva. Fugira de alguém e agora desejava fugir de si mesma.
Eles sabiam que nunca voltariam a amar assim. A decisão dela? Parecia a solução mais fácil, desistir. Esquecera-se de distinguir o que era fácil do que era melhor para ela. E quem a pode julgar? Desejava ter esperado por ele para se despedir pessoalmente, talvez ele a tivesse impedido. Ele desejava ter saído naquele momento, ter ido à procura dela (talvez tivesse ido a tempo). Talvez, talvez, talvez. O eco dessa palavra ecoava na mente dos dois. Mas quando nos perdemos por ruas desconhecidas, não podemos voltar atrás.
não é real mas sim imaginário!